Investimentos · 7 min de leitura
Marcar renda fixa na curva ou a mercado: a confusão mais cara do mercado
Por que o saldo "na curva" engana, quando a marcação a mercado importa e como avaliar o que você realmente tem em renda fixa pré-fixada e IPCA+.
Por Hugo Amanajás · 21 de abril de 2026
O extrato que mente sem mentir
Você compra um Tesouro IPCA+ 2050 ou uma debênture pré-fixada. No mês seguinte, abre o extrato e vê o saldo crescendo lindamente, "rendendo a taxa contratada". Tudo certo? Não. Se naquele momento você precisar vender, o valor no mercado pode estar 10%-20% abaixo do extrato. O extrato mostra marcação na curva, não na realidade.
Sumário
- Curva vs mercado — a diferença
- Por que isso acontece em renda fixa pré e IPCA+
- Quais ativos têm marcação a mercado
- Quando a diferença importa de verdade
- Como decidir sabendo disso
Curva vs mercado — a diferença
Marcação na curva: o saldo é calculado pela taxa que você contratou, como se a operação fosse mantida até o vencimento. É a "verdade matemática se nada mudar".
Marcação a mercado: o saldo reflete a taxa atual de mercado para o mesmo título. É o valor real se você vender hoje.
Se a Selic sobe e você tem um pré-fixado contratado a 10%, o mesmo prazo agora pode estar a 12% — o seu papel vale menos para quem fosse comprar. Marcação a mercado: preço cai. Marcação na curva: continua igual.
Por que isso acontece em renda fixa pré e IPCA+
Renda fixa pós-fixada (CDI): praticamente sem marcação. O saldo cresce conforme o CDI varia.
Renda fixa pré-fixada e IPCA+: tem marcação. O preço de mercado oscila inversamente à taxa de juros do mercado:
- Juros sobem → preço cai (você perderia se vender agora)
- Juros caem → preço sobe (você ganharia além da curva se vender)
O efeito é proporcional ao prazo: papel de 30 anos é muito mais sensível que papel de 3 anos.
Quais ativos têm marcação a mercado
- Tesouro Direto: sim, todas as classes (Selic mínima)
- CDBs pré-fixados e IPCA+: sim, embora muitos extratos mostrem apenas a curva
- Debêntures, CRIs, CRAs: sim, mas com liquidez menor (oscilação real só quando há transação)
- Fundos de renda fixa: sim, por regulação. O cotista vê a marcação na cota.
- CDBs pós-fixados em CDI: praticamente não — saldo cresce uniformemente
Quando a diferença importa de verdade
Cenários:
- Você leva até o vencimento — a marcação não importa. Você recebe o que contratou.
- Você precisa vender antes — a marcação é o que vale. O extrato "na curva" não tem relação com o caixa que entra na conta.
- Você quer rebalancear carteira — vende com o preço de mercado, não da curva. Plano de "vender quando subir 5%" precisa olhar mercado.
- Avaliação patrimonial honesta — para saber o real patrimônio investido, marcação a mercado é o número certo. A curva infla a percepção.
Como decidir sabendo disso
- Combine prazo com horizonte: se o capital tem horizonte de 5 anos, evite pré-fixado de 30 anos
- Em momentos de juros baixos (com expectativa de alta), pré-fixados longos têm muito a perder em marcação. Cuidado.
- Pós-fixado (CDI) é melhor "amortecedor" para flutuações de necessidade de liquidez
- Para construir uma carteira de renda passiva de longo prazo, IPCA+ longo faz sentido — basta saber que oscila no caminho
- Exija do seu broker/distribuidor: quero ver a marcação a mercado, não só a curva
A maior parte dos problemas com renda fixa vem do desconhecimento da marcação a mercado. Não é detalhe técnico — é o que define se você tem ou não tem o dinheiro que pensa ter. Veja como avaliar um CDB levando isso em conta. Vamos conversar.
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